15 de dezembro de 2023
| Paulo Steele | Rodrigo Mota | Helder Sousa | ||||
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As tarifas residenciais de energia elétrica devem ter uma alta média de 7,61% em 2024. Por trás da projeção da TR Soluções estão principalmente o aumento dos encargos Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) e Encargo de Energia de Reserva (EER), além da alta dos custos com a Rede Básica e a redução dos créditos tributários alocados às tarifas. Neste último artigo de 2023, a TR também apresenta uma novidade do Serviço para Estimativa de Tarifas de Energia (SETE) para a primeira release de 2024, cujas projeções tarifárias agora virão acompanhadas de uma dispersão de valores obtidos a partir de centenas de cenários pré-simulados. Por fim, o artigo traz um estudo do impacto tarifário dos “jabutis” incluídos pela Câmara dos Deputados no Projeto de Lei (PL) 11.247/2018. A situação é preocupante: a alta média adicional das tarifas devido ao PL pode chegar a 8,78% em 2030.
Tradicionalmente, a cada final de ano a TR Soluções divulga suas expectativas quanto às projeções tarifárias médias do Brasil para o ano que se inicia. Nessas oportunidades, também são abordados os fatores que, para o ano em questão, mais tendem a impactar as tarifas, bem como aqueles que mais geram incerteza nas projeções tarifárias. Neste ano, será um pouco diferente, pois o protagonismo nas informações é justamente o mapeamento das incertezas dessas projeções, incluindo os potenciais efeitos do Projeto de Lei 11.247/2018.
As projeções da TR Soluções indicam que as tarifas no Brasil (TUSD+TE), para os consumidores residenciais, devem apresentar um reposicionamento médio de 7,61% em 2024.
Tabela 1 - Reposicionamento médio das tarifas residenciais desde 2020, em R$/MWh

O reposicionamento médio resulta da média dos reposicionamentos de cada uma das 51 concessionárias de distribuição consideradas, ponderados pelos mercados de cada empresa. A TR Soluções reconhece que a simples apresentação dessa informação está longe de descrever o panorama setorial esperado para os reposicionamentos tarifários prospectivos. Afinal, como disse Delfim Netto, se o sujeito está com o rabo no forno e a cabeça na geladeira, não se pode dizer que ele esteja com uma temperatura média ótima. Para contornar pelo menos em parte essa “miopia” induzida pela informação média, apresentamos também a distribuição de frequência dos reposicionamentos esperados. Na Figura 1, é possível observar que, em 2024, na maioria das concessionárias os consumidores residenciais devem perceber uma variação positiva de até 11,5%. Além disso, as tarifas de oito distribuidoras devem ser reduzidas em relação a 2023 e nove devem ter um reposicionamento superior a 14%.
Figura 1 - Distribuição de frequência dos reposicionamentos tarifários projetados para 2024

A variação média das tarifas de energia em 2024 pode ser explicada principalmente pelo aumento de 27% no Encargo de Energia de Reserva; 13% na Conta de Desenvolvimento Energético (CDE); aumento de 15% nos custos com a Rede Básica, e redução de 12% dos Créditos Tributários alocados nas Tarifas de Energia (TE) e de 34% dos alocados na Tarifa de Uso do Sistema de Distribuição (TUSD). Essas variações não são novidade para quem acompanha gratuitamente as publicações periódicas da TR Soluções: em fevereiro de 2023, foi publicado um artigo alertando sobre os efeitos das reduções dos créditos tributários nas tarifas. Em maio e setembro, respectivamente, a TR Soluções publicou artigos dedicados ao EER e à CDE. Além disso, em outubro publicou um artigo que explica as elevações de custos com a Rede Básica.
Tabela 2 - Reposicionamento médio em 2024 considerando os macros componentes tarifários

Em desenvolvimento continuo há 12 anos, a plataforma de inteligência de mercado e projeção tarifária SETE tem evoluído constantemente nesse período, com mais de 270 versões do sistema disponibilizadas aos clientes. A robustez da ferramenta garantida por esse desenvolvimento constante não torna, no entanto, o usuário refém dos números e premissas da TR Soluções. Pelo contrário, ele pode alterar mais de 140 parâmetros para a definição dos cenários. Toda essa flexibilidade invariavelmente provoca incertezas quanto às variações possíveis dos cenários tarifários. Num mundo ideal, a projeção poderia ser estabelecida considerando todos os valores possíveis para o universo de fatores considerados. Na realidade, no entanto, o tempo necessário para um cálculo dessa ordem de grandeza de cenários inviabilizaria o processo. Diante dessa situação, a TR Soluções inovou mais uma vez, e disponibilizará a ferramenta de Dispersão já na primeira release de 2024. Essa ferramenta permitirá a quantificação da variabilidade das projeções anuais de tarifas a partir de uma amostra do universo de cenários pré-simulados. No total, são considerados 729 cenários, resultantes da combinação de diferentes possibilidades de hidrologia (considerando as variáveis de PLD; CMO; EAR e GSF) e três possibilidades para cada uma das variáveis macroeconômicas (IPCA; IGP-M; SELIC; DÓLAR e PIB). De posse dos resultados dos 729 cenários, são determinados, para as projeções de todas as componentes tarifárias, três valores tarifários estatísticos para cada nível de tensão da distribuidora analisada: o primeiro quartil (Q1); a mediana (Q2); e o terceiro quartil (Q3). Para 2024, os valores obtidos com os 729 cenários indicam a dispersão das tarifas de aplicação médias do Brasil (TUSD+TE) para os consumidores residenciais nas condições apresentadas na Tabela 3, a seguir.
Tabela 3 - Dispersão para as projeções médias das tarifas residenciais em 2024

Como detalhado acima, a incerteza é inerente ao processo de projeção tarifária, mas pode ser mapeada a partir dos cenários esperados para os fatores que o explicam. Essas incertezas, no entanto, não estão sozinhas: na realidade, alterações na legislação do setor elétrico podem ser muito mais impactantes. Esse é o caso das modificações incorporadas por meio de jabutis1 no PL 11.247/2018, que trata do aproveitamento de potencial eólico offshore do país e foi recentemente aprovado pela Câmara dos Deputados. Caso passe no Senado na forma em que se encontra, o texto pode causar alterações significativas no comportamento das tarifas nos próximos anos. Dentre os diversos jabutis encaminhados da Câmara ao Senado, destacam-se as seguintes determinações:
O impacto tarifário da incorporação de custos adicionais de R$ 35 bilhões por ano deve ter início a partir de 2027. Considerando a possibilidade de esses novos custos serem tratados no âmbito da Conta de Energia de Reserva (CONER), como Encargo de Energia de Reserva, o encargo pode ter um aumento superior a 80% em 2031, quando toda a potência a ser contratada terá sido disponibilizada.
Tabela 4 - Projeções para a componente tarifária EER, em R$/MWh

De maneira a se obter o efeito isolado das referidas determinações propostas pelo Congresso, foram comparadas as tarifas médias Brasil em duas situações: uma considerando o cenário atual (sem PL), e a outra considerando um cenário com os custos adicionais da ordem de R$ 35 bilhões por ano a serem percebidos a partir de 2027.
Tabela 5 - Impacto das mudanças do PL nas projeções das tarifas médias, residenciais, no Brasil.

É importante destacar que os efeitos decorrentes do PL foram calculados sobre uma projeção que já considerava os efeitos da contratação das usinas térmicas de que trata a Lei n. 14.182/2021, ainda que em condições diferentes das previstas na nova proposta de legislação. Outro destaque é que, caso o PL realmente seja colocado em prática, o encargo protagonista das tarifas deixará de ser a CDE, que perderá o título para o EER a partir de 2029.