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04 de novembro de 2026

Dois sentidos, duas contas: como separar consumo e injeção na alocação de custos da rede


Série “Alocação de custos na era dos prosumidores” – Artigo 2 de 3


Resumo

Este é o segundo artigo de uma série de três. No Artigo 1 vimos que o método oficial de divisão dos custos da rede pressupõe fluxo em um só sentido, o que não representa mais a realidade com a geração distribuída. Aqui explicamos, em linguagem acessível, como o estudo da TR Soluções reconstrói o cálculo em quatro passos: fechar o balanço de energia, separar consumo e injeção, descobrir quem usa qual parte da rede e transformar esse uso em custo. O Artigo 3 apresentará os resultados.

Na parte 1

Vimos que a rede é dimensionada para o horário de pico, que seu custo (Fio B) é dividido pelo Custo Marginal de Capacidade (CMC) e que o modelo oficial supõe fluxo unidirecional. Com 112 das 228 curvas de carga da empresa analisada representando prosumidores, essa premissa deixou de se sustentar.

1. O método em seis fases

O estudo parte dos mesmos ingredientes da metodologia da Aneel (curvas típicas, mercado de referência, topologia da rede, perdas e custos marginais de expansão) e os organiza em seis fases. Este artigo cobre as fases 2 a 5; a fase 6 fica para o Artigo 3.

Figura 1 – As seis fases do método; as fases em destaque são tratadas neste artigo

Esquema das seis fases do método de alocação de custos, com as fases 2 a 5 em destaque
Fonte: elaboração própria. Esquema ilustrativo.

2. Passo 1: fechar a conta de energia

Antes de falar em custo, é preciso garantir que as curvas descrevam um sistema coerente. Pense na conciliação das contas de um condomínio: o que entrou no caixa precisa bater com o que foi gasto. Na rede, a energia que entra em cada nível de tensão deve ser igual à que sai, somadas as perdas. Nos dados brutos da empresa analisada isso não ocorria: a energia de entrada somava 52,5 TWh por ano, enquanto as curvas de consumo explicavam 47,8 TWh.

A diferença, chamada de resíduo, é absorvida por uma regra explícita e rastreável de ajuste, que preserva os dados de faturamento e a compensação do SCEE. O ajuste se concentra na curva A4/BT, que passa de 11,13 para 23,73 TWh (+113%). A causa dessa diferença não foi identificada, e o próprio relatório a lista entre as limitações.

Figura 2 – Balanço de energia da empresa analisada: o resíduo e o ajuste na curva A4/BT

Balanço de energia da distribuidora mostrando o resíduo entre entrada e consumo e o ajuste aplicado à curva A4/BT
Fonte: relatório da TR Soluções, plataforma ESTRUTURA, dados Aneel da Cemig de 2023.

3. Passo 2: a decomposição ortogonal

Este é o coração da proposta. A curva de um prosumidor é um perfil líquido: valores positivos indicam consumo e valores negativos indicam injeção. O estudo a separa em duas curvas que nunca apresentam valores ao mesmo tempo, o Fluxo Direto (consumo) e o Fluxo Reverso (injeção). O perfil líquido é a diferença entre as duas. Como em cada hora só uma delas é diferente de zero, diz-se que a separação é ortogonal: uma não compensa a outra.

Figura 3 – Decomposição de um perfil líquido em Fluxo Direto e Fluxo Reverso

Perfil líquido de um prosumidor decomposto em curva de Fluxo Direto (consumo) e curva de Fluxo Reverso (injeção)
Fonte: elaboração própria. Esquema ilustrativo.

Por que isso importa? Porque a rede não cobra “saldo”. Pense em uma avenida de mão dupla: o congestionamento da ida pela manhã e o da volta à noite não se anulam. Da mesma forma, o transformador sofre com a injeção de meio-dia e com o consumo da noite, mesmo que o saldo do prosumidor seja zero. A separação também elimina as divisões por zero que travavam o modelo tradicional.

Figura 4 – Por que o saldo engana: dois momentos de pressão sobre a rede se escondem atrás de um saldo próximo de zero

Pico de injeção ao meio-dia e pico de consumo à noite que pressionam a rede apesar de saldo diário próximo de zero
Fonte: elaboração própria. Esquema ilustrativo.

4. Passo 3: quem usa o quê (matrizes β e π)

Com os dois ambientes separados, é preciso descobrir qual rede atende qual carga. O estudo usa duas matrizes complementares, ligadas pelo Teorema de Bayes:

  • β: indica que fração da energia de cada Rede Tipo é enviada a cada Carga Tipo (“para onde vai a energia”).
  • π: faz o caminho inverso e indica que parcela da demanda de cada carga se origina em cada rede (“de onde vem a demanda”).

Figura 5 – As matrizes β e π: dois sentidos de leitura da mesma relação entre redes e cargas

Matrizes beta e pi relacionando Redes Tipo e Cargas Tipo nos dois sentidos de leitura
Fonte: elaboração própria. Esquema ilustrativo.

Os resultados da empresa analisada ilustram bem a diferença entre os ambientes. No pico de consumo, às 20h, 96,10% da carga em baixa tensão é atendida pela média tensão, o padrão hierárquico clássico. No pico de injeção, às 11h, apenas 20,19% do excedente gerado em baixa tensão sobe para a média tensão; segundo o modelo, os outros 79,81% são consumidos por vizinhos no próprio nível de BT. O fluxo reverso é, portanto, um fenômeno predominantemente local. Esse percentual resulta do fechamento do modelo e não foi medido.

Figura 6 – Para onde vai a energia nos dois picos da empresa analisada

Destino da energia no pico de consumo às 20h e no pico de injeção às 11h na distribuidora analisada
Fonte: relatório da TR Soluções, plataforma ESTRUTURA, dados Aneel da Cemig de 2023.

5. Passo 4: do uso ao custo

O Custo Marginal de Capacidade (CMC) de cada carga, em cada hora, combina quatro elementos: a responsabilidade da carga sobre cada rede (π), o custo marginal de expansão de cada nível de tensão, as perdas e a pergunta “a rede está em horário de ponta agora?”, que o modelo responde comparando o carregamento da rede com um limiar próximo do seu máximo. O cálculo é feito duas vezes, gerando o CMC direto, para a carga, e o CMC reverso, para a geração.

Figura 7 – Os ingredientes do Custo Marginal de Capacidade

Componentes do Custo Marginal de Capacidade: responsabilidade pi, custo marginal de expansão, perdas e indicador de ponta
Fonte: elaboração própria. Esquema ilustrativo.

Três consequências merecem destaque:

  • Causalidade: o CMC reverso eleva-se quando a injeção de fato inverte o fluxo e agrava a necessidade de expansão. Não há cobrança de custos de redes a montante do ponto de injeção por injeção que não pressiona a rede.
  • Alívio reconhecido: a geração consumida localmente reduz a responsabilidade dos consumidores no Fluxo Direto, o que beneficia todos eles.
  • Sem descarte de curvas: a abordagem processou 100% das curvas disponíveis, inclusive as que têm inversão de fluxo.

6. Um bônus: simular o efeito de baterias e veículos elétricos

Como as matrizes relacionam redes e cargas, é possível aplicar uma modulação de carga (ΔY) e ver como o custo marginal muda. Por exemplo, uma bateria que desloca consumo do fim da tarde para o meio do dia reduz o pico noturno. Isso transforma o cálculo, hoje estático e feito uma vez por ciclo, em um indicador de sensibilidade. A simulação é linear, funciona como aproximação regulatória e econômica e não substitui um estudo de fluxo de potência.

Figura 8 – Efeito de uma modulação de carga (por exemplo, uma bateria) sobre o pico noturno

Curva de carga antes e depois de uma bateria deslocar consumo do fim da tarde para o meio do dia, reduzindo o pico noturno
Fonte: elaboração própria. Esquema ilustrativo.

7. Em resumo

Quadro 1 – Modelo vigente versus método proposto
Modelo vigente Método proposto
Sentido do fluxo Um só sentido (da subestação ao consumidor) Dois ambientes: Fluxo Direto e Fluxo Reverso
Curvas com inversão de fluxo Descartadas Tratadas (100% das curvas processadas)
Resultado do cálculo CMC da carga CMC direto (carga) e CMC reverso (geração)
Uso do cálculo Estático, a cada revisão tarifária Também como simulação de modulações (ΔY)

No próximo artigo, veremos o que esses cálculos revelam sobre os horários mais caros para a rede, que sinais de preço deles decorrem e como os valores se comparam aos da Aneel.


* Sobre esta série. Os três artigos resumem o relatório técnico “Alocação de custos na era dos prosumidores: separação de sinais de preço para carga e geração” (TR Soluções, versão 3.8, 2026), disponível em https://doi.org/10.5281/zenodo.23439480.